Meu melhor amigo acaba de me enviar um post no Instagram que descreve uma conversa — provavelmente fictícia — entre um pai e seu filho. Nessa conversa, o pai diz que não irá mais pedir pizza no delivery. Nunca mais. Super recomendo a leitura, mas trago aqui o ponto principal do raciocínio desse pai, que acredito que ressoará dentro de muitas pessoas que porventura leiam esse texto.

O pai diz em certo momento “Lembra quando íamos ao restaurante mexicano e conversávamos com os atendentes? Parecia que era algo que a nossa comunidade estava fazendo, ao invés de mais uma transação sem rostos.” O que imediatamente faz o filho responder “sim, lembro que uma vez a mãe bebeu tanta tequila que foi ao banheiro, riu demais e fez xixi nas calças”.

O texto prossegue citando outros exemplos distintos, porém todos relacionados através do que pode-se chamar de uma tendência à hiper-conveniência. “Estamos acostumados a ter exatamente o que queremos exatamente quando queremos”, diz o pai, “e quando isto não acontece, ficamos irritados.”

Quero argumentar neste texto que estamos todos experimentando a pragmatização ou a transacionalização das coisas do dia-a-dia. Explico. Se antes, íamos pessoalmente a um restaurante para comer (ou mesmo para buscar comida), nosso trajeto inevitavelmente nos colocaria em relação com outras pessoas. Sim, alguém nos cortaria no trânsito e meteríamos a mão na buzina com o coração disparado. Ou veríamos aquele vizinho com o qual não gostamos tanto de interagir, teríamos que usar nosso melhor sorriso amarelo e seguir em frente. Teríamos que lidar com o barulho dos outros clientes no restaurante, algo que nem sempre estamos dispostos a fazer.

Porém, no caminho, talvez avistássemos um pássaro que há muito não víamos no nosso bairro. Notaríamos como as pessoas estão vestidas, veríamos um artista de rua se apresentando. Conversaríamos sobre o que anda acontecendo no mundo, contaríamos uma piada nova que faria nossa companhia dar fortes gargalhadas. Conheceríamos o rosto dos trabalhadores do restaurante, e numa interação curta, trivial, quase boba, mostraríamos um ao outro que reconhecemos: há seres humanos preparando um jantar delicioso, e seres humanos recebendo a comida para compartilhar com os seus. Poderíamos compartilhar um sorriso ou um olhar cansado, e oferecer algum alento, mesmo que através do reconhecimento de que sim, “hoje está difícil”.

É fato conhecido no mundo de desenvolvimento de jogos que, dada a oportunidade, seres humanos otimizarão seu comportamento em jogos ao ponto de remover deles a diversão. Sim, há certo imperativo biológico em minimizar o gasto de energia e maximizar o resultado. Esta é, porém, uma visão pragmática e transacional. É uma visão focada em utilidade.

Esta visão encontra solo fértil nos anos atuais. Estamos todos cansados e acreditamos cada vez mais que simplesmente “não temos energia sobrando” para lidar com a complexidade da interação humana. A hiper-conveniência vem como um alívio, ou algo que não requer que nos impliquemos na sociedade da qual fazemos parte. Bela consequência de primeira ordem, o alívio. Porém em segunda ordem, as consequências indiretas são, a meu ver, tristes. Se todos pensamos que é um alívio não participar de interações com os outros, estamos todos abrindo mão de uma parte riquíssima da existência, que é o coexistir. Claro que não é fácil estar em relação com os outros, como qualquer pessoa que já enfrentou crises em suas relações deve saber. Porém isto não deve ser motivo para que não nos relacionemos.

Há uma dificuldade em estar vivo. Há, sim, um peso atrelado à existência em conjunto. Porém o que significa para nós enquanto sociedade o rechaço deste peso? Significa deslocar, cada vez mais, faculdades humanas para serem realizadas por apps desenvolvidos por big techs? Se o ato de pensar, refletir, e redigir um texto — seja ele uma mensagem, um e-mail, uma carta, um artigo, um ensaio — é muito complexo, por que abrimos mão da oportunidade de aprender com a dificuldade, e deixamos que empresas tenham cada vez mais poder sobre nós e nossas vidas? Por que não vamos pessoalmente buscar nossa comida com mais frequência e começamos a interagir com outras pessoas que gostam dessa comida também? O quão solitários estamos, e o quanto deixamos que estes “pequenos” atos deixassem de fazer parte de nossa vida em nome da conveniência? Com quais aspectos (deliciosos ou irritantes) da humanidade dos outros estamos nos desacostumando?

A solidão é nota de fundo constante das sociedades atuais. Temos que estar dispostos a sofrer a convivência com outros seres humanos para podermos também desfrutar de sua beleza.